Você não sente nada há horas — e não é falta de atenção
A vida em tela usa só dois sentidos. Um guia de exercícios simples para voltar a sentir o corpo.
Faz quanto tempo que você sentiu alguma coisa que não fosse vidro?
A pergunta parece estranha, mas é literal. Boa parte da vida hoje passa por telas — e tela usa só dois sentidos, visão e audição. Tato, olfato, paladar, equilíbrio, propriocepção ficam de fora, dia após dia, sem que a gente note a ausência.
Quem escreve sobre isso com precisão é Tereza Violet Stehlíková, artista e pesquisadora baseada em Praga. No livro Exiled From Our Bodies: How to Come Back to Our Senses (Routledge, 2025), ela conta que durante os bloqueios da pandemia essa deriva pra fora do corpo ficou impossível de ignorar. Passou anos criando exercícios sensoriais na própria prática artística, e resumiu alguns num guia publicado na Psyche.
O guia tem sete exercícios. Aqui vão alguns — escolhi os que dá pra fazer sem preparo especial.
A caixa sensorial
Reúna cinco coisas: uma tigela de arroz cru, uma tigela de água, uma erva aromática (fresca ou seca), uma fatia de limão e um chá — hortelã-pimenta ou outro, quente ou frio.
Mergulhe a mão no arroz e sinta a textura, o peso, a temperatura; deixe um punhado cair entre os dedos. Molhe as pontas dos dedos na água e note o contraste entre a parte submersa e a exposta. Cheire a erva com atenção. Aproxime o limão do nariz, depois lamba — veja se a boca se encolhe. Por fim, tome um gole lento do chá e sinta ele passando pelo corpo. Fechar os olhos ajuda a não deixar a visão resolver tudo primeiro.
Mudar de posição no espaço
Fique de pé no meio de uma sala. Depois encoste as costas numa parede. Depois se deite no chão. Depois — e aqui o guia pede um pequeno ato de subversão — sente embaixo de uma mesa por um tempo. Cada posição muda o que o corpo registra do ambiente. A ideia não é chegar a uma conclusão, é notar a diferença.
Toque, com alguém ou sozinho
Em dupla: cada um pega um pedaço de argila, vendam os olhos, sentem de frente e explorem o próprio material só pelo tato, em silêncio, por cerca de cinco minutos. Depois troquem os pedaços e respondam à forma que receberam, alterando-a. Repitam mais algumas vezes; ao final, juntem os dois materiais e continuem esculpindo em conjunto, só pelo toque. Tirem a venda e vejam o que fizeram sem ver.
Sem parceiro, existe a versão solo: escolha um objeto qualquer, feche os olhos e explore-o apenas pelo tato, por pelo menos três minutos — o guia sugere cronometrar, porque o instinto é abrir os olhos antes da hora.
Sair da rota
Na próxima caminhada de rotina, mude uma decisão pequena: onde normalmente viraria à esquerda, vire à direita. Stehlíková chama isso de "infra-ordinary walk", em referência ao conceito do escritor Georges Perec — atenção ao que é comum demais pra ser notado. Ela sugere até enquadrar pedaços da paisagem com as mãos ou um tubo de papel, como quem fotografa sem câmera.
O guia tem ainda uma variação mais radical — caminhar de olhos vendados, guiado por alguém de confiança que escolhe o percurso — pra quem quiser ir além do que cabe aqui.
Por que isso não é sobre relaxar
Nada disso é meditação disfarçada. É notar que boa parte da experiência sensorial — que sempre esteve disponível — some quando a vida inteira passa pela mesma tela retangular. Stehlíková não promete uma sensação de paz; promete só o contato de volta. O resto — se vem calma, tédio ou estranheza — é a informação que estava faltando.